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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Sony pode adotar formato aberto para livros eletrônicos

Livros em papel talvez sejam produtos de baixa tecnologia, mas ninguém está autorizado a dizer ao leitor como e onde se pode lê-los. Para muita gente, o problema dos leitores eletrônicos é que eles apresentam muitas restrições desse tipo.


Livros digitais adquiridos hoje da Amazon.com, por exemplo, só funcionam com o leitor Kindle, da Amazon, ou com o software que a empresa criou para o iPhone.

Algumas restrições quanto ao uso de livros eletrônicos devem permanecer. Mas existem editoras e fabricantes de bens eletrônicos de consumo cujo objetivo é oferecer aos compradores de livros eletrônicos mais flexibilidade, por meio de um padrão comum de tecnologia para eles. Isso também ajudaria a combater a Amazon.com, que detém a liderança desse mercado incipiente.

Na quinta-feira, a Sony, fabricante de leitores eletrônicos vendidos com a marca Reader, planeja anunciar que até o final do ano estará vendendo apenas livros eletrônicos no formato ePub, um padrão aberto criado por um grupo que inclui editoras como a Random House e a HarperCollins.

A Sony também removerá o software de bloqueio de cópias que desenvolveu e o substituirá por um produto da Adobe que restringe o número de vezes que um livro eletrônico pode ser copiado ou emprestado.

Depois da mudança, os livros comprados na loja online da Sony poderão ser lidos não só em seus equipamentos mas na crescente constelação de outros leitores adaptados ao ePub, entre os quais o eReader, da Plastic Logic ¿ um aparelho fino que está em desenvolvimento há quase uma década e deve entrar no mercado no ano que vem.

"Haverá uma proliferação de diferentes leitores eletrônicos, com recursos, capacidades e preços diferentes, para atender a requisitos diferentes dos leitores", disse Steve Haber, presidente da divisão de leitores eletrônicos da Sony. "Caso as pessoas forem a um shopping center de livros eletrônicos, elas desejarão poder comprar em todas as lojas, e não apenas em uma".

A decisão da Sony surge em meio à crescente preocupação com o poder de mercado cada vez maior que a Amazon.com exerce na categoria dos livros eletrônicos. As vendas do segmento atingiram o recorde de US$ 14 milhões nos Estados Unidos em junho, 136,2% acima do total do mês em 2008, de acordo com a Associação Americana de Editoras.

A Amazon.com não revela sua receita com livros eletrônicos, mas analistas afirmam que ela provavelmente responde pela maioria dessas vendas.

A Amazon.com demonstrou sem querer uma potencial consequência das restrições de uso de livros eletrônicos, no mês passado, ao descobrir que havia vendido cópias não autorizadas dos romances 1984 e Animal Farm, de George Orwell; a empresa por isso removeu as cópias desses títulos das bibliotecas Kindle de seus compradores.

Jeff Bezos, presidente-executivo da Amazon.com, posteriormente pediu desculpas pela decisão, mas não antes que ativistas empregassem o episódio como pretexto para protestar contra as limitações da leitura digital.

"As pessoas precisam lembrar que, ao comprar livros vendidos com sistemas de proteção a direitos digitais, não têm a mesma liberdade que existe em um livro normal", diz Holmes Wilson, diretor de campanha na Free Software Foundation, que conseguiu assinaturas de quase quatro mil escritores e especialistas em tecnologia para uma petição que afirma que o software de proteção contra cópias da Amazon representa "clara ameaça ao livre intercâmbio de opiniões".

O exemplo da Apple
Empresas como a Sony e a Adobe não querem abandonar as restrições a cópias por medo de que isso permita pirataria de livros. O objetivo delas é promover padrões comuns para o setor, a fim de evitar a repetição do acontecido no setor de música digital, dominado pela Apple.

No começo da década, a Apple vendia em sua loja de música digital iTunes música protegida por seu software FairPlay, e que só podia ser executada nos aparelhos iPod.

O resultado foi que ela "trancou" o mercado. A Apple ganhou poder de mercado e influência extraordinários e se tornou capaz de ditar normas às grandes gravadoras sobre assuntos como o preço das faixas de música digital. Então, como agora, as empresas menores se uniram para promover mais flexibilidade e liberdade de escolha por meio de padrões abertos.

"Se os termos e condições de negócios forem ditados às editoras por uma empresa de comércio de livros que detém o controle sobre a cadeia de valor, as editoras terão dificuldades para manter a lucratividade", diz Bill McCoy, gerente geral da divisão de editoração digital da Adobe.

Para a Sony, que lançou o Reader mais de um ano antes do Kindle, a adoção de formatos abertos é parte de uma estratégia para recuperar o terreno perdido. Ela lançou duas versões novas e mais baratas do aparelho recentemente, e anunciou que o preço de livros em lançamento e best sellers cairia a US$ 9,99. Mais tarde este ano, a empresa lançará um terceiro Reader que, como o Kindle, permitirá compra sem fio de livros.

A Amazon.com, de sua parte, acredita que será capaz de agir sozinha, sem adotar os padrões setoriais. Um porta-voz da empresa não quis comentar para este artigo, mas Bezos declarou anteriormente que seu objetivo era "oferecer livros do Kindle no maior número possível de aparelhos". Isso indica que haverá em breve versões do software Kindle para o BlackBerry, o Palm Pre e outros aparelhos.

Allen Weiner, analista do grupo de pesquisa tecnológica Gartner, lembra que uma empresa importante ainda não determinou se vai adotar formato aberto ou fechado para os livros eletrônicos: a Apple.

Se, como esperado, ela lançar em breve um computador com tela de toque que funcionará como leitor eletrônico, e se adotar formato aberto como o ePub, isso pode forçar a Amazon.com a reconsiderar sua posição, segundo Weiner. "Se Steve Jobs tiver a companhia de um executivo da Adobe ao anunciar o novo aparelho, a Amazon.com terá muito com que se preocupar", disse.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times

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